O PRIMEIRO GOLPE

31 de março de 1964. A imagem é nítida na memória: meu pai chegando muito mais cedo em casa. Funcionário público estadual, ele costumava me pegar no colo perto do meio-dia, mas naquela terça-feira as portas do escritório da CEEE[1] foram interditadas, guarnecidas por soldados do Exército Brasileiro. Jamais esqueci as palavras de um pai assustado e triste pelo golpe militar que mergulharia o país numa ditadura de duas décadas: “Não consegui entrar. Os soldados estavam de baioneta calada e arma embalada”.

Pela sacada eu acompanhava os tanques de guerra e suas lagartas[2] machucando o asfalto, viaturas verde-escuro para cima e para baixo e centenas de soldados pelas ruas. Num dos quartos do apartamento, minha avó materna doente, “desenganada” segundo os médicos. Meu vocabulário aumentava: flebite, gangrena, trombose, morfina. Aprendi a escrever aos quatro anos, e a primeira palavra organizada no chão com palitos de fósforos foi o nome de minha avó: Almerinda.

[1] Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica. Atualmente é a concessionária dos serviços de distribuição de energia elétrica na região sul-sudeste do Estado do Rio Grande do Sul.

[2] De acordo com o Dicionário Aurélio, lagarta é um dispositivo que facilita a circulação das rodas dos tratores ou dos tanques, fazendo que se movam em terrenos inacessíveis a viaturas comuns.

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