LUZ E SOMBRAS

A recordação mais remota da minha infância tem a ver com luz e sombra. A imagem invertida que se formava no jogo de claro e escuro, através das janelas de um pequeno quarto no apartamento de meus avôs. Figuras em movimento que eram associadas a algum ruído do lado de fora. Uma bicicleta, um automóvel, alguém caminhando, um cavalo puxando uma carroça provocavam uma atenção especial, diferente. A imaginação escorria pelas frestas da janela veneziana. Eu não sabia que estava testemunhando um dos princípios da fotografia, mais tarde uma de minhas paixões. A cada sombra que se movimentava de cabeça para baixo, correspondia uma figura imaginada.

Meus primeiros cinco anos foram empoleirados num apartamento da Avenida Rio Branco, em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, com meus pais e meus avôs maternos. Neto de um ferroviário, cresci ouvindo um alto-falante tipo corneta, pendurado na marquise abaixo da sacada. Daquele objeto redondo, com uma espécie de nariz cinzento, saía um barulho esquisito, misturando músicas com a voz de um homem que parecia sempre furioso. Faziam parte do meu cotidiano nesta época de efervescência política no país ─ início dos anos 60 ─ palavras como assembléia, comício, passeata e greve.

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