MEU PAI: EURIDES

Meu pai, EURIDES SCHMIDT, dizia que sua data de nascimento era 13 de janeiro, embora registrado como nascido no dia 15. Sempre o abracei no dia 13. Mas o aniversário durava três dias, porque falávamos sobre o assunto, ele, minha mãe Cecy e eu, até 15 de janeiro. E os abraços e risadas se multiplicavam, é claro. Essa é uma das várias histórias engraçadas desse eterno adolescente, capricorniano, irmão da Ione, Iolanda e Germano, o Maninho.

Lembro as pescarias no rio Verde, em Santa Maria. Preparava a tralha, iscas, linhas, anzóis, e chumbadas derretidas numa caçarola, moldadas por ele em vários tamanhos. E a tradicional linguiça com farofa, que tio Deoclides, o Juca, gostava de esconder pra atrasar a saída. Minha mãe nos acompanhava quase sempre. Pintados e jundiás eram os peixes preferidos.

Nascido em Porto Alegre-RS, em 1934, filho de João Henrique e Zilda Clélia, o gremista EURIDES mostrava orgulhoso um carnê de sócio patrimonial do tricolor gaúcho. Apaixonado por futebol, jogou nas categorias de base do Aymoré de São Leopoldo-RS, onde viveu a infância e adolescência. Fanático torcedor do Grêmio, contava sobre um Grenal que assistiu com minha mãe ao lado, no Estádio da Baixada, em Porto Alegre. O detalhe curioso é que Cecy, grávida, torceu pelo tricolor junto ao alambrado de arame, equilibrada num engradado de cerveja. Em outro jogo do Grêmio fui parar no colo do lateral esquerdo Ortunho. Posso dizer de boca cheia que sou gremista desde criancinha. EURIDES garantia que não era supersticioso, mas fazia figa com os dedos e virava ao contrário o par de chinelos, quando Pedro Carneiro Pereira, da Rádio Guaíba, narrava uma falta perigosa ou um pênalti contra o Grêmio.

Aos sete anos, ganhei de meu pai um jogo de botão da Estrela, com dois times, daqueles tipo canoinha, com as fotos dos jogadores. Ele nem perguntou qual dos dois eu preferia. Apenas me comunicou que escolheria para a primeira partida, o Corinthians, do goleiro Heitor e mais: Galhardo, Ditão, Clóvis e Édson; Dino Sani e Rivelino; Marcos, Tales, Flávio e Eduardo. Sem questionar, fiquei com o São Paulo de Suly; Osvaldo Cunha, Bellini, Jurandir e Tenente; Dias e Valter; Faustino, Prado, Del Vecchio e Paraná. Mais tarde ele confessou que o Corinthians do Parque São Jorge era seu segundo time do coração. EURIDES foi meu principal adversário nos jogos de botão. Jogava muito bem e não dava nenhuma moleza. Mais tarde aprendi a fabricar meus próprios botões, derretendo plástico em forminhas de quindim.

Outra de suas paixões eram os canários belga. Confeccionava os ninhos acolchoados, acompanhava os rituais de acasalamento e comemorava quando os filhotes quebravam os ovinhos. Cresci ouvindo os trinados e aprendi a imitá-los assobiando. Mas os pássaros não ficavam o tempo todo nas gaiolas. EURIDES soltava os canários que voavam pela casa toda, muito à vontade.

Meu pai fazia churrasco sem usar sal grosso. Preparava um molho de salmoura numa gamela e regava a carne com essa mistura, utilizando uma espécie de vassourinha de folhas amarradas. O resultado final era acompanhado pela salada de batatas com maionese, arroz branco bem soltinho e outras iguarias preparadas pela minha mãe.
Uma de suas comidas preferidas era o rollmops, filé de arenque enrolado, em conserva.
E quando não tinha paciência para descrever o que ia comer ou o que ia preparar, ele respondia assim: “Ronhonhô com batata e engolesmado com cebola”.

Exímio datilógrafo, embora não usasse todos os dedos, era rápido nos teclados. E gostava de exibir suas habilidades com cálculos matemáticos. Outra de suas paixões foi o turfe. Chegou a ser jóquei amador, aproveitando seu físico franzino. Fera como jogador de damas, tinha prazer em vencer as partidas deixando uma das peças do adversário sem possibilidade de movimento, o chamado “porco”.

EURIDES foi telegrafista antes de ser funcionário da CEEE, Companhia Estadual de Energia Elétrica. No Rio Grande do Sul, trabalhou em Santa Maria, Jaguari, São Sepé e Cruz Alta. Em São Sepé, – gerente entre 1965 e 1967 – decidiu fazer um pomar e uma horta modelo. O motivo que o indignou: um caminhão de frutas e verduras, que se instalava na cidade uma vez por semana, reservava os melhores produtos para as figuras mais “importantes” da cidade. Esmigalhei muito esterco seco sobre os altos canteiros da horta que só recebia adubo orgânico. EURIDES e minha mãe distribuíam com prazer, durante todo o ano, os produtos caseiros fresquinhos para a vizinhança.

Quando comecei a fazer teatro no colégio, em Cruz Alta, em 1975, foi meu grande incentivador.

Colecionava frases e ditados: “Urubu quando tá caipora, num cagaço se descadeira”. “Não bebo água nas orelhas de ninguém”. “Ih, lá se foi o boi com a corda!”. “Sonhos são variedades”. “Agora eu quero ver o papai dançar com a mamãe”. Cumprimentava as pessoas nos aniversários, com a saudação: “Felicidade, gordura e graxa na capadura!”, “Adeus, tia Chica!”. Quando alguém dizia: “Se deus quiser…”, ele emendava: “… João Francisco e a mulher e a polícia de Bagé”. A mais engraçada ele dizia rindo, quando queria espantar algum mau agouro: “Cutufum! Três cu de nega mina, reboco de igreja velha, arruda, guiné, sassafrás!”

EURIDES morreu em agosto de 1977, aos 43 anos.

Deixou uma herança valiosa: o bom humor. Tenho me esforçado…

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