MINHA MÃE: CECY

Quando lembro da minha mãe, CECY, uma das primeiras imagens é a fotografia de uma mulher muito bonita, sorrindo, caminhando ao lado da minha tia e madrinha, Gecy. Elegantes, sorriam pela rua, acho que em Santa Maria-RS, década de 1950. Havia nela uma suavidade, misturada a um jeito forte, resistente, desafiador.

A filha de Almerinda e Christovam teve seis irmãos – Geny, Euclides, Batista Luzardo, Gecy, Deoclides e Teresa. Do primeiro casamento, CECY teve dois filhos, César e Cristóvão. Contava que meu avô atravessou o Rio Grande do Sul, como bombeiro-ferroviário, abrindo caminho pelas linhas de trem. Jornadas que faziam a família se desdobrar em atividades diversas. A cada cidade uma lavoura de milho, feijão e mandioca, além da criação de animais para o sustento do dia-a-dia.

Nascida em Val de Serra, distrito de Júlio de Castilhos-RS, e virginiana, de 25 de agosto, CECY se revelava nas habilidades culinárias. Doces executados a partir de livros de receitas manuscritas. Impossível esquecer o bolo de areia e o bolo brasil, o preferido do meu primo Paulo Roberto. Ainda sinto o aroma, o sabor e a textura do pudim de laranja. Porém, sua receita predileta de sobremesa era o cupido, uma mistura de creme de baunilha, gelatina vermelha e banana, coberta com glacê. Na fornada de pão feito em casa sempre tinha lugar para o meu boneco com olhos feitos com grãos de feijão. Os pratos salgados do dia-a-dia eram servidos como iguarias requintadas. Que saudade do feijão com louro, dos bifes à milanesa, da batata com maionese e da mandioca cozida, com farinha torrada por cima!

Nas viagens de trem entre Santa Maria e Porto Alegre, preparava o cardápio: galinha com farofa, mini pasteis e Cyrillinha, refrigerante, que marcou minha infância.

Com meu pai, Eurides, mantinha uma cumplicidade no bom humor. Inesquecíveis as cenas dos dois correndo pela casa, trocando cócegas, às gargalhadas. Ambos adoravam receber visitas para os almoços de domingo.

CECY era fã do cantor Carlos Galhardo e das novelas de rádio. Meu pai conta que a conquistou cantando “Malandrinha”, de Freire Jr., grande sucesso de Francisco Alves, o Rei da Voz.

Companheira dele nas pescarias pelo Rio Verde cuidava dos quitutes para a beira d’água. Cuidadosa, recomendava cautela com as cobras. Na infância foi perseguida por uma cobra coral.

Também não era muito amiga das vacas, que seguidamente encontrávamos nos caminhos até o rio. Dizia minha mãe que se fôssemos atropelados por um boi ou touro bravo, a salvação era deitar no chão e ficar parado até o animal desistir. O recurso, segundo ela, não se aplicava às vacas, que não desistiam do ataque e pisoteavam a vítima. Era melhor correr até a árvore mais próxima.

CECY foi minha professora de caligrafia, me ensinou a jogar cinco marias e a desenhar, mesmo depois da frase definitiva aos nove anos: “não tenho tendência pro desenho”. Não admitiu a afirmação prematura do filho e com paciência guiou meus lápis de cor. O resultado: uma imponente palmeira, que rendeu boa nota no terceiro ano primário. Habilidosa em diversos trabalhos manuais, colecionava inúmeras peças de bordado.

Também foi brava comigo. Quando voltei do colégio, exibindo manchas de caneta azul pela camisa branca do uniforme, ela ficou furiosa. No tanque, logo depois, não hesitou em me acertar uma chicotada com a camisa molhada, ainda com espuma de Rinso. E quando eu ultrapassava os limites, falava em voz alta: “Heitor Flavio, vou deixar tua bunda como uma rosa jericó!”. Era a senha para o filho parar de aprontar. Eu achava engraçado e ria. Ela também. Eu não tinha a menor ideia do que ela queria dizer com a frase, mas respeitava a ameaça. Décadas depois, fui saber pelo Google, que a rosa-de-jericó não tem nada de rosa.

Fecho os olhos e vejo algumas cenas. Minha mãe escrevendo, a lápis, endereços e telefones na porta interna do guarda-roupa de madeira. A parede do quarto, com imagens do Sagrado Coração de Jesus e de Santa Catarina. Ela colhendo pitangas comigo…

CECY morreu dormindo, aos 50 anos, em 1974.

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